Na segunda metade do século XIX os trabalhadores reivindicavam a redução das suas longas horas de trabalho diário. Dependendo da região, trabalhavam 14 ou mais horas por dia e a exigência da redução para 8 horas tornava-se uma causa internacional.
Avançava entre os trabalhadores a consciência de que a palavra de ordem era: oito horas de trabalho, oito horas de descanso e oito horas para fazer o que se quisesse.
Já há alguns anos, a luta pela redução da jornada de trabalho estava na pauta de reivindicações dos operários norte-americanos, e no ano de 1886 o movimento operário em Chicago chegava ao enfrentamento: uma greve geral estava marcada para o dia 1º de maio e os trabalhadores estavam dispostos a mantê-la até que as reivindicações fossem atendidas.
Após a massiva manifestação do 1º de maio de 1886 em Chicago, desdobraram-se os seguintes acontecimentos: no dia 3 de maio a polícia matou seis operários reprimindo as manifestações; no dia seguinte, uma bomba procedente da manifestação mata oito policiais.
Esse atentado serviu de pretexto aos empresários e às autoridades para reprimir o movimento, e o ponto máximo dessa repressão chegou ao processo, condenação e enforcamento de alguns dentre os mais destacados líderes operários, responsabilizados pelas mortes ocorridas.
Foram processados Samuel Fielden, Michael Schwab, Oscar Neebe, Adolf Fischer, Albert Parsons, August Spies, Ludwig Lingg e George Engel. Entre esses, Fielden e Schwab foram condenados à prisão perpétua; Neebe a 15 anos de cadeia; e os demais à morte.
O processo caracterizou-se pela irregularidade e pela evidente parcialidade com que foi conduzido: o júri compunha-se de elementos francamente hostis aos réus e à sua causa; testemunhas e provas falsas foram arranjadas e usadas pela polícia e pelo promotor. Sendo assim, a condenação era decorrência nada surpreendente dessas manobras judiciais.
Em 11 de novembro de 1887, ocorreu o enforcamento de August Spies, Albert Parsons, Georg Engel e Adolf Fischer. Louis Lingg já não estava entre os executados, pois havia se suicidado na prisão, utilizando um explosivo.
Os mártires de Chicago seguem vivos na nossa memória. Reproduziremos aqui alguns trechos das cartas e discursos pronunciados por esse companheiros. Foram condenados por suas idéias e não por seus feitos.
Discursos dos Mártires
Adolf Fischer
“Não falarei muito. Somente tenho a protestar contra a pena de morte que me impõem, porque não cometi crime nenhum. Fui tratado aqui como assassino e o único que se tem provado de mim é que sou anarquista. Pois repito que protesto contra essa bárbara pena, porque de mim não provaram crime algum. Mas, se ei de ser enforcado por professar as idéias anarquitas, por meu amor à liberdade, à igualdade e à fraternidade, então não tenho nada a contestar. Se a morte é a pena correspondente à nossa ardente paixão pela liberdade da espécie humana, então, eu lhes digo bem alto: disponham de minha vida.”
August Spies

“É a Anarquia que está sendo julgada! Se assim é, para a honra de vocês, o que me agrada: eu me sentencio, porque sou anarquista...”
“Esse estado de classes – o qual vocês chamam ordem – eu creio, sim, que esta bárbara forma de organização social, com seus roubos e seus assassinatos legais, está próxima de desaparecer e deixará o caminho pronto para uma sociedade livre, para a associação voluntária ou irmandade universal, se preferem assim. Pode, pois, sentenciar-me, honorável juiz, mas que ao menos se saiba que no estado de Illinois oito homens foram sentenciados à morte por acreditarem em um bem-estar futuro, por não perderem a fé no triunfo final da Liberdade e da Justiça!”
Albert Parsons
“Arrebenta a tua necessidade e o teu medo de ser escravo; o pão é a liberdade, a liberdade é o pão. A propriedade das máquinas como privilégio de uns poucos é o que combatemos; o monopólio das mesmas, é contra isto que lutamos. Nós desejamos que todas as forças da natureza, as forças sociais, essa força gigantesca – produto do trabalho e da inteligência das gerações passadas – sejam postas à disposição do homem, submetidas ao homem para sempre. Este, não outro, é o objetivo do socialismo.”
Ludwig Lingg
“Eu repito que sou inimigo da ordem atual e repito também que a combaterei com todas as minhas forças enquanto tiver alento. Vocês se riem provavelmente, porque estão pensando: “Você não lançará mais bombas”. Pois, permitam-me que lhes assegure que morro feliz, porque estou seguro de que as centenas de operários a quem falei recordarão minhas palavras e quando houvermos sido enforcados eles farão estourar a bomba. Nesta esperança lhes digo: Desprezo-os: desprezo sua ordem, suas leis, sua força, sua autoridade. ENFORQUEM-ME!”
Michael Schwab

“Nós defendemos a anarquia e o comunismo, por quê? Porque se nós calássemos falariam até as pedras. Todos os dias se cometem assassinatos, as crianças são sacrificadas desumanamente, as mulheres perecem por força de trabalhar e os homens morrem lentamente...; e não se vê jamais as leis castigarem estes crimes...”
“A anarquia é a ordem sem governo. Nós os anarquistas dizemos que o anarquismo será o desenvolvimento e a plenitude da cooperação universal. Dizemos que quando a pobreza tiver sido eliminada e a educação for integral e de direito comum, a razão será soberana. Dizemos que o crime pertencerá ao passado, e que as maldades daqueles que se extraviarem poderão ser evitadas de modo diferente do de nossos dias. A maior parte dos crimes se deve ao sistema imperante que produz a ignorância e a miséria.”
Oscar Neebe

“Durante os últimos dias pude aprender o que é a lei, pois antes não o sabia...”
“Eu estive, sim, naquela reunião, na qual não apareceram os representantes do sistema capitalista atual para discutir com os operários suas aspirações. Eu não o nego. Tive também, em certa ocasião, a honra de dirigir uma manifestação popular, e nunca vi um número tão grande de homens em correta formação e com a mais absoluta ordem. Aquela manifestação imponente percorreu as ruas da cidade em voz de protesto contra as injustiças sociais. Se isto é um crime, então reconheço que sou um delinqüente. Sempre supus que tinha direito a expressar minhas idéias como presidente de um comício pacífico e como diretor de uma manifestação. Entretanto sou declarado culpado por desse delito, desse pretendido delito.”
George Engel

“É a primeira vez que compareço ante um tribunal americano, e nele sou acusado de assassino? E por que razão estou aqui? Por que razão acusam-me de assassino? Pela mesma razão por qual tive que abandonar a Alemanha, pela pobreza, pela miséria da classe trabalhadora.”
“Comprei livros para ilustrar-me mais, e eu, que havia sido político de boa fé, abominei a política e as eleições e também compreendi que todos os partidos estavam degradados e que os próprios democratas socialistas caíam na corrupção mais completa. Então entrei na Associação Internacional dos Trabalhadores. Os membros desta Associação estão convencidos de que só pela força os trabalhadores poderão emancipar-se, conforme o que a história ensina. Nela podemos aprender que a força libertou os primeiros colonizadores deste país, que só pela força foi abolida e escravidão, e assim como foi enforcado o primeiro que neste país agitou a opinião contra a escravidão, nós vamos ser enforcados.”
Samuel Fielden

“Eu amo a meus irmãos, os trabalhadores, como a mim mesmo. Eu odeio a tirania, a maldade e a injustiça. O século 19 comete o crime de enforcar os seus melhores amigos. Não tardará em soar a hora do arrependimento. Hoje o sol brilha para a humanidade; mas o posto que para nós não pode iluminar dias mais ditosos, considero-me feliz ao morrer, sobretudo se a minha morte pode adiantar um só minuto a chegada do venturoso dia e que o sol ilumine melhor os trabalhadores. Eu creio que chegará um tempo em que sobre as ruínas da corrupção se levantará a esplendorosa manhã do mundo emancipado, livre de todas as maldades, de todos os monstruosos anacronismos de nossa época e de nossas caducas instituições.”